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Amapá, uma abstração? – Por Kelly Tork
Já dizia o pensador chinês Confúcio: “A ignorância é a noite da mente: mas uma noite sem lua e sem estrelas”. Ninguém é obrigado a saber tudo. Tudo bem. No entanto, a maior virtude do ser humano é, ao se deparar com a falta do saber, buscar a luz do conhecimento.
Em tempos de internet 2.0, o que não dá é pra incorporar a síndrome de Gabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim…”. Ainda que não se queira utilizar as tradicionais (e alguns até diriam, chatas) fontes de pesquisa, como sites de notícia e enciclopédias, outras possibilidades existem, como o divertido e colorido “Orkut”, os amigos virtuais do “MSN”, ou o até a febre do momento, o “Twitter”. Na falta disso, vale apelar para os antiquados meios de comunicação como TV, rádio ou jornal.
Mas o que não dá pra aceitar mesmo é que uma pessoa que repassa suas impressões, (de)formadora de opinião, transmita a escuridão de seus pensamentos para aqueles que o rodeiam. Eu, jornalista que sou, estudiosa dos fenômenos da mídia (e por isso busco observá-los da maneira mais imparcial possível), senti vergonha ao ler um texto sobre o Amapá escrito por Rogério Borges e veiculado no Magazine Popular, de Goiânia.
Não, não. Não se antecipe em pensar que fiquei horrorizada com algum fato narrado que por aqui se passou. Antes fosse, mas nada disso. Minha decepção foi ao ver o nobre colega dizer que não acredita que o Amapá exista simplesmente porque ele não o conhece ou porque a Globo nunca fez uma minissérie sobre o Estado.
Rogério e leitor, se me permitem, vamos pegar uma pequena lanterna e clarear alguns fatos. A despeito do que afirma o ilustre colunista, o Amapá já foi sim notícia em várias grandes emissoras de TV, como SBT, Record e até (pasmem!!) a Rede Globo. Sim, correspondentes nacionais da “toda poderosa” já estiveram no Estado algumas vezes para Globo Repórter, Globo Esporte e Globo sei lá mais o que. E não é de hoje que os fenômenos naturais como o Equinócio e a Pororoca chamam a atenção do Brasil e do Mundo para a região.
Bem, se você pesquisou um pouco mais, pode até argumentar esses espetáculos não são privilégio exclusivo do local. De fato, não são. Mas a Fortaleza de São José, maior fortificação portuguesa construída no Brasil, é. E digo mais, sabiam que ela (ao lado do Cristo Redentor, do Maracanã e outras mais) foi eleita uma das 7 maravilhas do Brasil?
Em 2008, a Escola de Samba do Rio de Janeiro Beija-Flor foi campeã com um enredo que relatava o que mesmo?? Ah, aquela cidade às margens do maior rio do mundo localizada sobre uma linha imaginária que, segundo Borges, não existe. O que? Vai dizer que, porque nunca viu, o Rio Amazonas também não existe? Nesse caso, serei obrigada a lhe apresentar um senhor que sabe de muitas coisas chamado “Google”, dele você ouviu falar, não?
Tá certo que nossa exportação não é assim tão expressiva, mas exportamos sim. Exportamos minérios, soja, pescado e até talentos. Já assisti, mais de uma vez, Fernanda Takai, vocalista da Banda Pato Fu, declarar que nasceu em Serra do Navio. Fora alguns outros talentos que vez por outra aparecem nos grandes programas de entretenimento – Convenhamos que qualquer outra coisa fora do eixo Rio-São Paulo- Bahia recebe menor atenção da mídia. O que não quer dizer que eles não existam. Aqui temos grandes músicos, poetas, escritores, pintores, artistas de uma forma geral.
Voltado ao amigo de Goiás, sinceramente, fiquei em dúvida se o que presenciei foi pura ignorância ou apenas uma tentativa infeliz de autopromoção. De qualquer modo, se ainda duvida da existência do Amapá, é só sair da comodidade do seu mundinho e vir tomar açaí, comer maniçoba, dançar marabaixo e sentir a hospitalidade de um povo que recebe a todos de braços abertos. Vou dar a dica: nem precisa pedir pózinho da fada Sininho, as companhias aéreas já operam pra cá.
Ah, já ia esquecendo…quanto ao Sarney, eu me rendo, devo admitir que esse sim é uma lenda. Um mistério que ninguém consegue compreender.
*Jornalista, especialista em Comunicação e Política, professora do curso de comunicação.
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Do Papaléo Paes (Senador pelo Amapá )
O Sr. Rogério Borges, do jornal “O Popular”, de Goiânia, na coluna “Crônicas e outras Histórias” datada de 7 de abril último, apresentou texto com o título “Amapá, uma abstração”.
Esse artigo exige um esclarecimento maior e uma resposta a ser dada em nome do povo amapaense, que merece ser lida e compreendida por todo cidadão brasileiro.
Este Sr. Rogério Borges, saturado de preconceitos e dotado de uma ignorância inconcebível sobre a realidade do nosso País, começa o seu texto solicitando de alguém, quem quer que seja, a comprovação de que o Amapá existe. Segundo ele, até hoje nunca teve essa comprovação. Para ele, o Amapá é uma abstração, uma figura de ficção, uma espécie de miragem coletiva, um Estado de fantasia, um mito, uma lenda urbana.
Diz ele não conhecer ninguém que tenha nascido no Amapá, como também ninguém que tenha sequer estado no Amapá. E por aí vai, na soberba de sua mediocridade.
Como é que pode um cidadão brasileiro, um jornalista, um homem de comunicação e cultura, um formador de opinião ser tão desprovido de conhecimento sobre a realidade brasileira. Será que este cidadão nunca foi a uma escola, nunca saiu de sua casa, do ambiente de sua família, não convive com ninguém na cidade onde mora, para chegar a este ponto completo de alienação? E como conseguiria ter um espaço permanente em um jornal do Estado de Goiás, da bela capital brasileira que é Goiânia, e pertencer a um povo tão valoroso, tão inteligente, tão criativo tal qual é o povo goiano?
Devo começar a minha resposta a este cidadão dizendo que o Amapá existe sim. Trata-se de um Estado da Região Norte do nosso País, onde está localizada a fantástica Floresta Amazônica.
Macapá, a nossa capital é banhada pelo Rio Amazonas, imenso, indo em direção do Oceano Atlântico. O Estado do Amapá se destaca neste cenário deslumbrante como o Estado mais preservado em sua biodiversidade de toda a Região Norte do Brasil.
O Amapá tem uma História belíssima, digna de ser cantada em prosa e verso por quem gosta, admira e respeita o Brasil como País.
Temos heróis como Cabralzinho, homem que liderou a defesa do nosso território contra a cobiça dos franceses e o Barão do Rio Branco, que também se tornou vitorioso nos Tribunais internacionais, não permitindo que a vasta extensão territorial entre o Rio Araguari e o Rio Oiapoque, no extremo Norte deixasse de ser brasileira.
Na História contemporânea do Amapá se destacam as figuras de Getúlio Vargas e de Janary Gentil Nunes. Getúlio, então Presidente do Brasil, decretou a criação do Território Federal do Amapá, desmembrando-o do Estado do Pará. Janary, o primeiro Governador do Território, com diretrizes de governo de “Povoar, Sanear e Educar”, e contando com uma equipe valorosa de pioneiros, muito bem selecionados, realizou a mais bem sucedida experiência de valorização de áreas de que se tem notícia na História da Amazônia.
O Amapá tem grande importância geopolítica para nossa Nação especialmente por sua fronteira com a Guiana Francesa. Apresenta uma cultura ímpar e riquíssima. Possui sítios arqueológicos de valor inestimável, grandes músicos, poetas, escritores, enfim, é uma realidade incontestável, dotada de um futuro promissor, capaz de proporcionar ao Brasil imensas alegrias e muito progresso.
No auge de sua ignorância, o Sr. Rogério Borges, ao tentar comprovar que o Amapá não existe argumenta com o fato inverídico de que a Rede Globo, em sua programação, nunca fez referências sobre o Amapá. Novamente falta informação e conhecimento ao jornalista.
Por diversas vezes a Rede Globo de Televisão registrou matérias sobre a biodiversidade do Amapá; a importância histórica da Fortaleza de São José, a beleza e a força da Pororoca; o equinócio, fenômeno que só ocorre na linha do equador e que apresenta o dia e a noite com a mesma duração.
Em 4 de fevereiro de 2008, com justificado orgulho, com imensa alegria, a população do Amapá comemorou os dois séculos e meio de sua Capital. Quis o destino que os 250 anos de Macapá fossem escolhidos pela Escola de Samba Beija-Flor como tema de seu desfile carnavalesco daquele ano.
Assim, o Sambódromo do Rio de Janeiro e toda a população brasileira acompanharam um enredo emocionante: “Macapaba: Equinócio Solar, Viagens Fantásticas ao Meio do Mundo”. Nesse enredo, que acabou consagrado como o campeão do carnaval carioca, foram vislumbradas as belezas da cidade e do Estado do Amapá
Como representante eleito pelo povo do Estado do Amapá, gostaria de convidar o Sr. Rogério Borges a nos visitar. Que ele venha conhecer a hospitalidade do povo amapaense, saborear a deliciosa culinária da região, apreciar nossas belezas naturais e nossa cultura. Que ele venha com o coração desarmado, o espírito aberto e sem preconceitos. Tenho certeza que sua opinião será muito diferente a partir de então.
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